Sejam Bem Vindos! よろしくお願いします!

Olá pessoal, sejam bem vindos à esta página. Criei este blog para poder compartilhar com vocês algumas informações sobre a língua japonesa, além das minhas impressões acerca desse idioma, suas particularidades, as dificuldades enfrentadas pelos falantes de português do Brasil ao estudar o idioma japonês, e claro, alguns pontos comparativos com o português que considero muito interesssantes.

Sejam Bem Vindos!     よろしくお願いします!       リマ・マレイ marley de lima

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Estruturas básicas para o inicio da aprendizagem em língua japonesa


 Para dizer o nosso nome, nacionalidade, profissão, usamos uma mesma estrutura, formada de {nome/substantivo + a partícula "wa" + substantivo + "desu"}

________は________です。
________wa________desu.

Com essa estrutura pode-se formar muitas frases. Lembrando que é uma estrutura usada para frases substantivas e frases adjetivas. Por enquanto trabalharemos apenas com frases substantivas. Em especial para dizer o nome, a nacionalidade, a profissão.
Ex.1: 私          は  マリア  です。
       Watashi   wa   Maria   desu.
       Eu sou a Maria.

Ex. 2: 私    は  ブラジルじん です。
         Watashi   wa    burajirujin        desu.
         Eu sou brasileira.

Ex. 3: マリアさん は  学生   です。
          Maria san   wa     gakusei      desu.
          A senhora Maria é estudante.


Para dizer que eu /ou outra pessoa “também é...” tem-se a estrutura:
________も________です。
________mo________desu.

Ex. 4: 私     も  学生  です。
    Watashi    mo   gakusei   desu.
         Eu também sou estudante.

Ex. 5: マリアさん も ブラジルじん です。
          Maria san   mo   burajirujin    desu.
          A senhora Maria também é estudante.

Agora é só variar o vocabulário para outras profissões/nacionalidades e pessoas, que poderão elaborar um grande número de outras frases.
Abçs

マレイ
Texto original (2005)
Revisado e reescrito em 28/02/2015

Parte XV – Sufixos para nomes de pessoas “san, chan, kun”



  
Quem não se lembra do famoso filme Karatê Kid e do Daniel “san”? Pois é, em japonês é regra colocar o sufixo “san” após o “nome” (sobrenome) da pessoa. Em língua japonesa não se tem o hábito de usar a palavra “você” ao se referir a outra pessoa. Em lugar deste pronome, usa-se chamar a pessoa sempre pelo sobrenome acrescido do sufixo indicador de respeito.
田中さん、 お元気 ですか。
たなかさん、おげんき ですか。
Tanaka san, ogenki desuka. Se dirigindo ao Sr. Tanaka: Tudo bem Sr. Tanaka?
Além do sufixosan, existem mais dois outros sufixos, que são ちゃん = chan  e  くん = kun. Normalmente, chan é utilizado para nomes de meninas, especialmente crianças e kun para nomes de meninos. Já ouvi algumas pessoas usar o sufixo chan para nomes de meninos (crianças).
À medida que os laços de amizade com uma pessoa japonesa vão se estreitando, é comum não usar o sufixo após o nome. Pode ser que usem os sufixos “chan” ou “kun”, que dará uma ideia de maior proximidade. Mas também pode ser que nem usem.
 É importante lembrar que não se deve colocar qualquer um destes sufixos após o seu próprio nome. O mesmo acontece com o nome dos familiares.
マレイ
Obs.: Este texto, originalmente parte integrante do artigo publicado no livro comemorativo dos 100 da Imigração Japonesa - ANBG, e agora revisado, com acréscimos.
 LIMA, Marley Francisca de . Watashi no me kara mita nihongo: algumas observações sobre a língua japonesa como LE. In: Associação Nipo Brasileira de Goiás; SAITO, Cecília Noriko Ito; MOTA, Fátima Alcídia Costa. (Org.).  地球を半回り・ゴイアスの日本人- Meia volta ao mundo: imigração japonesa em Goiás. 1 ed. Goiânia: Gráfica e Editora Bandeirante Ltda, 2008, v. , p. 215-225.

Língua e cultura - parte 1


Como todos sabem, uma língua reflete a cultura de seu povo. Não podemos estudar uma língua apenas pela forma. É preciso conhecer além da forma, é preciso saber em que situações usar determinadas expressões, além de saber o significado do tom/entonação de voz, dos gestos, da expressão corporal, entre outras tantas coisas. Tudo isso pode variar de uma cultura para outra, e no caso do japonês, se comparado ao português brasileiro, as diferenças são muitas e muitas vezes opostas.
Um dos casos é em relação ao olhar. No Brasil, alguns dizem que se uma pessoa desvia o olhar ao falar com alguém é porque está mentindo. Já no Japão torna-se indelicado fixar o olhar no rosto da pessoa com quem falamos. Lembro-me das reuniões da pequena empresa em que trabalhei no Japão, onde todos sentados nos banquinhos do refeitório abaixavam a cabeça ao ouvir o discurso do chefe da empresa, e eu ali olhando fixamente para o chefe, pensando que só eu estava correta (rs). Além de mim, ninguém ousava olhar para ele, e eu ficava pensando que eram eles que estavam sendo grosseiros.

Arquivo pessoal (26 de outubro de 2012)

Ps.: Este pequeno artigo escrevi em outubro de 2012, com a intenção de escrever um pouco mais e só então postar. No entanto, hoje preferi postá-lo desta forma, e em outros momentos, farei novos recortes sobre o tema Língua e Cultura.
Abçs

     マレイ

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Artigo - O ETHOS EM UM CARTAZ JAPONÊS

Republicando - O ETHOS EM UM CARTAZ JAPONÊS


Este artigo foi escrito no final de 2009, como atividade avaliativa da disciplina de Texto e Discurso, ministrada pela Professora Elza Kioko Nakayama Nenoki Murata (Faculdade de Letras -Universidade Federal de Goiás), e postado neste blog pela primeira vez em 24 de agosto de 2011 (Página - Artigos). Agradecimento especial à Professora Tatiana Cavalcante, pelas grandes contribuições na revisão deste artigo.


O ETHOS DISCURSIVO

EM UM CARTAZ JAPONÊS

MARLEY FRANCISCA DE LIMA

RESUMO: O presente trabalho tem por objetivo analisar o ethos discursivo da mensagem publicitária de um cartaz japonês do início do século passado cujo objetivo era promover a emigração de japoneses para o Brasil. Por meio da análise das modulações enunciativas que projetam traços de caráter e corporalidade na enunciação, recuperados nos elementos composicionais do próprio texto publicitário em sua interação com os co-enunciadores, pudemos verificar que o ethos visado pela enunciação publicitária fez-se coincidir com o ethos construído pelos co-enunciadores em virtude da mobilização afetiva que a mesma provocou nestes últimos.    

PALAVRAS-CHAVES: ethos discursivo, fiador, imigração japonesa para o Brasil.







INTRODUÇÃO
No fim do século XIX, o Japão enfrentava uma grande tensão social causada pelas profundas transformações econômicas e políticas por que passava a nação. Isso se deu no período de instalação do governo do Imperador Mutsuhito Ishin Meiji, em 1868, o qual deu início ao processo de modernização do Japão.
Como conseqüência do processo de modernização promovido pelo Imperador, ocorreu generalizada falência de grande parte dos pequenos e médios produtores rurais, que perdiam suas terras e aumentavam o desemprego e a miséria no campo e nas cidades para onde migravam. Como o setor industrial não conseguia acolher toda a mão-de-obra ociosa e o excesso de população agravava a escassez de comida, o governo japonês resolve, então, estimular e facilitar a emigração no país.   
Para tanto, foram criadas as Companhias de Emigração – empresas privadas que recebiam incentivo político e econômico do governo do Japão – intermediavam a contratação da mão-de-obra japonesa por parte dos países que aceitaram recebê-la como imigrante.

Eram elas que negociavam os candidatos, providenciavam os meios de transporte e se responsabilizavam pelo cumprimento dos contratos. Também eram elas que, para expandir seus negócios recrutando o maior número possível de candidatos à emigração, difundiam a imagem paradisíaca do país de destino. Assim, os primeiros imigrantes que aqui chegaram acreditavam que tinham desembarcado no “Novo Eldorado”, a fantástica “terra das árvores de frutos de ouro”.[1]

Considerando-se as significativas levas de japoneses que deixaram seu país incentivados pelo próprio governo do Japão, buscamos compreender, neste trabalho, os recursos publicitários utilizados na produção de um cartaz que convidava um determinado público a partir para a América Latina. De modo mais específico, buscamos analisar o ethos discursivo da mensagem publicitária de um cartaz japonês do início do século passado cujo objetivo era promover a emigração de japoneses para o Brasil.
Para alcançar o objetivo a que nos propomos, analisamos as modulações enunciativas que projetam traços de caráter e corporalidade na enunciação, recuperados nos elementos composicionais do próprio texto publicitário em sua interação com os co-enunciadores.
Este estudo está situado no âmbito da Análise do Discurso e baseia-se, fundamentalmente, nas noções de ethos discursivo de Maingueneau (2005).


1. REFERENCIAL TEÓRICO
 A importante e fundamental noção sobre a qual se desenvolve este trabalho é a noção de ethos desenvolvida por Maingueneu (2005) a partir de uma elaboração conceitual primária feita por Aristóteles, para quem o ethos representava o caráter do orador.
A perspectiva pela qual Maingueneau (ibid.) defende sua abordagem de ethos, embora não totalmente apartada da concepção aristotélica, diferencia-se desta por ir além do domínio da argumentação. Enquanto a argumentação segue às voltas com a persuasão que busca exercer sobre seu público, Maingueneau propõe uma abordagem de ethos que abrange o processo de adesão dos sujeitos a um determinado discurso. Algo bastante evidente quando o discurso analisado é o publicitário, por exemplo. Além disso, Maingueneau se apóia em uma noção de ethos que abarca todo tipo de texto, tanto os orais como os escritos, enquanto a retórica tradicional manteve o ethos restrito à oralidade em situações de fala pública (assembleias, tribunal etc.).
Ao ethos de Maingueneau são atribuídos um “caráter” e uma “corporalidade” cujos graus variam em cada texto. Caráter esse associado a traços psicológicos que manifesta, enquanto a corporalidade vincula-se à sua compleição física e à vestimenta com que se apresenta. O destinatário apreende esse caráter e essa corporalidade como uma maneira de se mover no espaço social que é avaliada segundo paradigmas estereotípicos que a enunciação confronta ou reforça.
Segundo Maingueneau (2005), o “fiador”, construído pelo co-enunciador a partir de índices liberados na enunciação, associa-se ao ethos (em suas dimensões verbal, física e psíquica) pelas representações coletivas estereotípicas do público. Para o autor, “O fiador implica ele mesmo um “mundo ético” do qual ele envolve algumas situações estereotípicas relacionadas a comportamentos. Sobre tais estereótipos é que a publicidade contemporânea se apóia” (2005, p. 18).
Maingueneu (ibid.) afirma ainda que, embora a concepção de ethos esteja suscetível a amplas zonas de variação, alguns princípios mínimos podem ser definidos: o fato de que o ethos é uma noção discursiva (é construído por meio do discurso, não é uma “imagem” do locutor exterior à sua fala); o ethos é, basicamente, um processo interativo de influência sobre o co-enunciador; e uma noção híbrida (sócio-discursiva), que não pode ser dissociado de uma situação de comunicação específica.  
O autor afirma que, apesar de o ethos estar diretamente ligado ao ato da enunciação, deve-se considerar que o público pode construir, previamente ao discurso, a representação do ethos do enunciador. Daí, tem-se a co-existência de um ethos discursivo e de um ethos pré-discursivo. No entanto, Maingueneau explica que em determinadas situações não há a necessidade de que o púbico tenha representações do ethos pré-discursivo do locutor, como no caso de textos de autores desconhecidos. Diferentemente, no campo da política e das celebridades presentes na cena midiática, os sujeitos estão associados a um ethos não-discursivo que cada enunciação sua pode confirmar ou infirmar. Desse modo, a enunciação opera como um meio pelo qual os enunciadores oferecem pistas que tornam possível aos co-enunciadores confirmar ou infirmar a representação que conhecem do ethos desses sujeitos.
Concluída, aqui, a exposição de nossos principais referenciais teóricos, passaremos à análise de nosso objeto de estudo no tópico a seguir.


2. ANÁLISE DOS DADOS
Conforme afirmamos anteriormente, a crise que se instaurou no Japão com a instauração da Era Meiji, no final do século XIX, obrigou o governo japonês a incentivar a migração do seu povo. Inicialmente os migrantes foram direcionados à região norte do Japão (Hokkaido) e, posteriormente, com o agravamento da situação, o governo começou a incentivar a emigração para outros países, logo após a abertura dos portos japoneses, que há muito estavam fechados.
À princípio, os japoneses emigraram para Havaí, Austrália, Nova Caledônia, México, Peru, Filipinas e Canadá. Somente no início do século XX, os japoneses emigraram para o Brasil, formando, neste país a maior colônia de japoneses fora do Japão (REZENDE, 1991; YAMASHIRO, 1997; LIMA, 2009).
Até 1921, o governo do Estado de São Paulo fornecia subsídios à imigração japonesa que vinha suprir a necessidade de braços na lavoura de café. Rompidos os subsídios brasileiros, o governo japonês decidiu financiar sozinho a vinda de imigrantes para o Brasil diante do caos em que se encontrava o Japão no período que antecedeu e sucedeu a grande crise econômica internacional causada pela quebra da Bolsa de Nova York, em 1929.
Em 1925, para incentivar os japoneses a seguirem jornada rumo ao distante Brasil, foi confeccionado e distribuído um cartaz (reproduzido no Anexo 1) que convidava o povo nipônico a emigrar para as terras brasileiras juntamente com os seus familiares. A esse cartaz publicitário foi atribuída fundamental importância na colaboração do incentivo à vinda dos japoneses para o nosso país; tal é a razão pela qual nos dispomos a analisá-lo, sob o prisma da noção de ethos discursivo defendida por Maingueneau (2005). Nessa análise, pretendo identificar o que marca a presença do ethos discursivo do enunciador – nesse caso, o governo japonês – no cartaz em estudo.
Destacamos que, na época da divulgação do cartaz mencionado, existiam boatos no Japão de que havia no Brasil “árvores de dinheiro”; que tudo o que era plantado aqui, colhia-se em abundância; e que, em poucos anos de Brasil, os japoneses conseguiriam juntar dinheiro suficiente para retornar ao Japão e lá se restabelecer.  
Para iniciarmos, então, a análise do cartaz selecionado para este trabalho, reproduzimos o texto verbal do anúncio tal qual aparece em sua escrita original, apenas acrescentando a ele o seu furigana[2] correspondente. Em seguida, apresentamos o modo de leitura do referido texto em japonês na forma romanizada. E, por último, fazemos a tradução do texto analisado para o português.

2.1 Texto central do cartaz

QUADRO 1
Texto original
さあ、いかう。 一家いっかをあげて 南米なんべいへ。
Texto em romaji[3]
Sā, ikau. Ikka o agete nanbei e
Tradução do texto
Hei, vamos para a América do Sul com toda a sua família.

Em さあ、いかう。 一家いっかをあげて 南米なんべいへ。(“Hei, vamos para a América do Sul com toda a sua família.”)percebe-se que as palavras escolhidas pelo enunciador e a forma como essas são distribuídas ao longo do texto influenciam o modo de representação do seu ethos. O enunciado transmite a mensagem de incentivo à emigração, segundo a qual o enunciador e o seu público trabalharão juntos na nova terra.
Ao utilizar a forma verbal “vamos”, o enunciador lança mão de um “nós” implícito que inclui o interlocutor. Isso equivale a dizer que o “Hei, vamos” corresponde, em termos semânticos, a “Hei, agora nós (eu e você) vamos”. Essa escolha lexical revela um planejamento textual que promove a incorporação do co-enunciador com o ethos do enunciador.
Tomando, aqui, a noção de auditório de Perelman (1996 apud Greco, 2008: p. 628), que faz distinção entre o auditório universal e o auditório particular, verificamos que a enunciação no cartaz remete a um público específico que é o seu “auditório particular”.
Além disso, “o sujeito fala do lugar social do pobre e do trabalhador, para que haja a identificação do enunciador com esses co-enunciadores e, por intermédio dessa identificação, consiga a adesão das pessoas” (Greco, 2008: p. 630).
Na enunciação, o texto é produzido da seguinte forma:

QUADRO 2
[4],
ikau[5].
Ikka
o
agete
nanbei
e

V
O

V
O

Vamos
família
Partícula que, neste caso, acompanha verbos que os japoneses chamam de verbos de objetividade[6].
toda, inteira
América do Sul
Partícula que indica direção.

No enunciado, apenas o trecho em destaque apresenta a ordem regular da sentença japonesa (SOV[7]). E é justamente o deslocamento dos demais elementos no enunciado o fator responsável pelo tom (MAINGUENEAU, 2001) de “incentivo” e de “chamamento” que o texto adquire. De modo mais específico, destacamos o deslocamento do verbo “ir” como o causador da ênfase dada ao convite divulgado no cartaz. Na ordem frasal regular da língua japonesa (SOV), o enunciado ficaria da seguinte forma:

QUADRO 3
,
Ikka
o
agete
nanbei
e
ikau.

O

V
O

V

O Quadro 3 mostra que, em uma construção regular, o verbo “ir” do anúncio japonês estaria no final da sentença e não no início dela, como foi veiculado no cartaz. Podemos afirmar, então, que o deslocamento dos termos no enunciado do cartaz muda o tom que, de outro modo, o texto teria. Assim, aquela que seria uma simples frase convidando os japoneses a emigrar para a América do sul, com o deslocamento do verbo “ir”, torna-se um chamamento incisivo. No cartaz, o convite reforçado se realiza como um brado que convoca seu público-alvo a ir para o Brasil. Verifica-se, consequentemente, que o discurso institui uma situação de enunciação que o torna pertinente à situação sociopolítica do Japão naquele momento.
            No texto central do cartaz, o sujeito não se faz presente de um modo explícito, mas implícito. Pela flexão do verbo utilizado, percebemos o interlocutor inscrito com o locutor na cenografia daquele discurso e manifesto textualmente naquilo que, em português, classificamos como sendo a 1ª pessoa do plural do verbo “ir”, “vamos”. Observamos aqui que essa classificação de pessoa não ocorre na língua japonesa.


Enunciador
O enunciador, neste texto[8] é o governo japonês, que tinha interesse que parte de sua população emigrasse devido a um grande número de problemas vividos pelo Japão naquele período. Portanto, a forma como ele produz o seu discurso, seja através da ordem frasal (que dá um sentido de evocação mais intenso), ou ainda através do mundo ético, ele alcança o público e atinge as pessoas interessadas em emigrar do Japão.


O fiador
No texto sob análise, o fiador torna-se evidente na junção do texto verbal com o texto não verbal (a imagem do homem indicando o Brasil no mapa). Contudo, esse fiador não é designado e nem visível no primeiro plano do cartaz (constituído pela figura e pelo convite em destaque); ele é apenas percebido. E isso acontece por meio da leitura que os destinatários fazem dos índices liberados na enunciação.
Há que se considerar, aqui, que também fazia parte do ethos pré-discursivo do cartaz (o que contribuía na construção que os co-enunciadores faziam do fiador, de algum modo) o conhecimento que a população japonesa tinha de que aquela ‘terra prometida’ ficava bem próxima ao Peru, país para onde já haviam emigrado muitos de seus compatriotas, no século XIX. Possivelmente, esse fato tenha favorecido uma maior credibilidade ao convite que o governo japonês fazia; afinal, de certo modo, aquele não era um caminho tão novo.


O mundo ético
A ativação do mundo ético, no cartaz, faz-se com base em uma representação estereotípica dos japoneses campesinos que sofriam com a crise pela qual passava o país.
A figura do homem, apresentada significativamente maior do que sua família, remete à importância que o mesmo tem tanto na organização quanto na manutenção do grupo. Além disso, também percebemos no texto não verbal do cartaz a representação estereotípica de um comportamento que notadamente caracteriza a sociedade japonesa: o respeito ao núcleo familiar.
O fato de o camponês ser retratado junto com sua família ainda pode ser explicado pelo ethos pré-discursivo daquele anúncio. Esse referido ethos estava constituído, dentre outros fatores, pela exigência feita pelo governo japonês (mas não explícita verbalmente no cartaz) de que não fosse autorizada a emigração de indivíduos sozinhos, apenas de grupos familiares. Ou seja, a mensagem do texto não verbal do cartaz corrobora o ethos pré-discursivo conhecido pelos co-enunciadores, ao mesmo tempo em que é explicada por ele.   



2.2 Texto do rodapé do cartaz
O texto do rodapé do cartaz apresenta as marcas de um “ethos dito”, de um ethos sinalizado nas enunciações que informam o nome e a localização do órgão responsável pelos contratos de imigração (textos reproduzidos nos Quadros 4, 5 e 6, a seguir). Nesse ethos dito reconhecemos a identidade de quem realmente profere o discurso que convida à emigração: uma Companhia de Emigração autorizada pelo governo japonês. Assim validada, a enunciação do cartaz atraía para si a confiabilidade que a nação japonesa atribuía ao seu governante.

QUADRO 4 (Texto 1)[9]
Texto original
       社会局援助しゃかいきょくえんじょ
Texto em romaji
        Shakai Kyoku Enjo
Tradução do texto
        Departamento Social de Auxílio


QUADRO 5 (Texto 2)
Texto original
       海外興業株式会社かいがいこうぎょうかぶしきがいしゃ
Texto em romaji
        Kaigai Kōgyō Kabushiki Gaisha
Tradução do texto
        Empresa de Assistência aos Emigrantes
Obs.: No texto original, há o endereço da empresa (situada em Tóquio) após seu nome, mas não foi possível recuperá-lo.


QUADRO 6 (Texto 3)[10]
Texto original
       業務代理人事務所ぎょうむだいりにんじむしょ
Texto em romaji
        Gyōmu Dairinin Jimusho
Tradução do texto
        Escritório do Procurador do Trabalho
2.3 Texto não-verbal do cartaz

O texto não-verbal é o que aparece em primeiro plano no cartaz e, acreditamos, o que possui maior valor apelativo no quadro completo da enunciação. Trata-se da figura de um homem, caracterizado, pelo tipo de sua vestimenta e pela ferramenta que traz na mão esquerda, como um trabalhador agrícola. Nesse mesmo braço, o homem sustenta a família que leva consigo – a esposa e os filhos. Nas mãos de uma das crianças, percebe-se uma pequena flâmula japonesa – o valor patriótico associado à identidade da nação.
A mão direita da figura apresentada no cartaz indica, no mapa cujo recorte destaca quase todos os países da América do Sul, o Brasil como o local a que seriam enviados os emigrantes japoneses.
No cartaz sob análise, apreendemos o ethos de um enunciador que encarna o estereótipo do japonês campesino, um trabalhador agrícola. Este, um homem que zela por sua família e está pronto para o trabalho pesado. Na enunciação, ao invés da propaganda do produto (que, no entanto, figura como um ethos pré-discursivo – a terra paradisíaca distante), constata-se a valorização dos hábitos locucionais de um público específico ali representado e de seu modo de habitar o mundo (valorizando a família, utilizando uma ferramenta agrícola e vestindo-se[11] de modo apropriado à tarefa que executa) como um recurso utilizado pelo enunciador para favorecer a adesão desse público ao discurso produzido.
No cartaz em estudo, o fiador é designado e visível na enunciação. Vemos a ativação do mundo ético na forma impactante com que o estereótipo do trabalhador rural é representado na enunciação por meio de recurso não verbal. Tal enunciação promove a construção de um ethos que mobiliza a afetividade do destinatário em meio à sua experiência sensível do discurso. Nessa condição, o destinatário tende fortemente a não olhar com suspeição para o convite feito no texto. Ou seja, o co-enunciador tende a desconsiderar a possibilidade de estar interagindo com um ethos enganador. Fato esse que, posteriormente, os emigrantes japoneses puderam confirmar ao constatarem que os propalados benefícios a eles prometidos a respeito das novas terras não se cumpririam. Sobre a decepção que sofreram essas pessoas, Rui Kban Sano registra uma espécie de “canto-lamento” entoado pelos imigrantes “vindos da longínqua terra do arroz e do imperador para a terra do café e do coronel” (p. 40):

Mentiu quem disse o Brasil era bom,
mentiu a Companhia de Emigração:
no lado oposto da terra cheguei,
fiado no Paraíso, para ver o Inferno.
Do jeito como vão as coisas,
não passa de puro sonho
o dia de retorno glorioso.
Já que o fim é a morte por inanição,
melhor então é ser comido
por onça, por bicho qualquer.

Frustrados na nada paradisíaca terra brasileira, os imigrantes japoneses reconheceram o engodo do qual foram vítimas. Simplesmente porque se deixaram convencer pelo poder de persuasão de um discurso que constrangia “o destinatário a se identificar com o movimento de um corpo, seja ele esquemático ou investido de valores historicamente especificados” (MAINGUENEAU, 2005: p. 29). Não julgamos, aqui, a lisura dos países e Companhias de Emigração envolvidos na contratação da mão-de-obra japonesa e, menos ainda, arriscamos supor que a permanência desses japoneses em seu país seria condição para uma melhor sorte. Mas, a respeito dessas questões, muito tem sido publicado.
A figura ainda complementa o convite expresso no texto verbal ao sugerir, com a enxada na mão, qual seria a finalidade da partida rumo à América Latina – o trabalho no campo. Isso equivale a dizer que, com base no estereótipo do japonês campesino, o enunciador atualiza o mundo ético do qual faz parte o seu ethos e onde se movem os seus co-enunciadores. Desse modo, “a adesão do leitor se opera num escoramento recíproco entre a cena de enunciação e o conteúdo desenvolvido, conformes que são um ao outro” (MAINGUENEAU, 2005: p. 14).


Considerações finais
Com relação ao cartaz publicitário analisado neste trabalho, considerando-se os registros históricos que documentam o grande número de japoneses que saíram de seu país sob os cuidados de Companhias de Emigração, podemos afirmar que o ethos visado pelo enunciador coincidiu com o ethos produzido por seu co-enunciador.
Levamos em consideração também que o público tinha construída para si uma representação do ethos daquele enunciador que era anterior àquela enunciação. Essa representação prévia do ethos do enunciador caracterizava o seu ethos pré-discursivo, construído pelo público a partir dos comentários que circulavam no país acerca da próspera terra de além mar. O ethos estabelecido por aquela enunciação, então, vinha confirmar as representações feitas pelo público até ali, presentes e anteriores a ela.
A construção do ethos pelo destinatário deu-se, podemos afirmar, por meio de uma percepção complexa do conjunto do quadro da comunicação. Quadro esse que, constituído por material lingüístico e não-linguístico, tinha por objetivo convencer o público acerca dos benefícios oferecidos pela proposta por meio da mobilização da afetividade desse mesmo público (por meio do planejamento textual e todo o cenário construído pela figura apresentada).
Os efeitos multi-sensoriais mobilizados pela enunciação presente no cartaz sob análise foram, pois, causados por um ethos que, “por natureza, é um comportamento que, como tal, articula verbal e não-verbal” (MAINGUENEAU, 2005: p. 16) (grifo do autor).
O ethos concebido naquela enunciação, por privilegiar a dimensão visual (o personagem e o país de destino são apresentados em primeiro plano), adquire a concretude que a figura dá ao discurso. E, por meio do tom com que desdobra o seu convite, vemos o enunciador suscitar um “ethos coletivo” (que representa a importância que o povo japonês atribui à família e ao trabalho) para alcançar seu objetivo de promover a adesão desse público ao seu discurso. Vimos, assim, que a propaganda veiculada recorreu a um ethos notamente estereotípico do público a que se dirigia. Salientamos, aqui, que o público não era a nação japonesa como um todo, mas tão-somente a camada popular que vivenciava os problemas sociais da época – agricultores falidos e desempregados que estavam à margem do processo de modernização por que passava o país. 
Concluímos este trabalho afirmando que, por meio da análise das modulações enunciativas que projetam traços de caráter e corporalidade na enunciação, recuperados nos elementos composicionais do próprio texto publicitário em sua interação com os co-enunciadores, pudemos verificar que o ethos visado pela enunciação publicitária fez-se coincidir com o ethos construído pelos co-enunciadores em virtude da mobilização afetiva que a mesma provocou nestes últimos.



BIBLIOGRAFIA:
COELHO, Jaime; HIDA, Yoshifumi. Shogakukan: Dicionário universal japonês-português. 2. ed. Tōkyō: Shogakukan, 1998.

GRECO, Eliana Alves. O ethos e a identidade de Lula: a trajetória discursiva de um candidato à presidência da república. In: 1ª JORNADA INTERNACIONAL DE ESTUDOS DO DISCURSO – JIED. Maringá. 2008.

LIMA, Marley Francisca de. Por que estudar japonês: entre a motivação instrumental e o símbolo de etnicidade, 2009. 106 f. Monografia (Bacharelado em Letras e Linguística). Departamento de Letras e Lingüística, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2009.

MAINGUENEAU, Dominique. Análise de textos de comunicação. São Paulo: Cortez, 2001 apud GRECO, Eliana Alves. O ethos e a identidade de Lula: a trajetória discursiva de um candidato à presidência da república. In: 1ª JORNADA INTERNACIONAL DE ESTUDOS DO DISCURSO – JIED. Maringá. 2008.

MAINGUENEAU, Dominique. A propósito do ethos. In: MOTTA, Ana Raquel; SALGADO, Luciana (Orgs.). Ethos discursivo. Editora Contexto, 2005.

MENDONÇA, Leda Moreira Nunes; ROCHA, Cláudia Regina Ribeiro; GOMES, Suely Henrique de Aquino. Guia para apresentação de trabalhos acadêmicos na UFG. Goiânia: universidade Federal de Goiás, Pró-reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, 2005.

PERELMAN, C.; OLBRECHTS-TYTECA. Tratado de argumentação: a nova retórica. São Paulo: Martins Fontes, 1996 apud GRECO, Eliana Alves. O ethos e a identidade de Lula: a trajetória discursiva de um candidato à presidência da república. In: 1ª JORNADA INTERNACIONAL DE ESTUDOS DO DISCURSO – JIED. Maringá. 2008.

REZENDE, Tereza Hatue de. Ryu Mizuno: saga japonesa em terras brasileiras. Curitiba, PR: SEEC; Brasília: INL, 1991.

SANO, Rui Kban. Japoneses: sonhos e pesadelos. In: SANO, Rui Kban.  Trabalhadores – Pubicação mensal do Fundo de Assistência à Cultura, Prefeitura Municipal de Campinas, 1989.

STÖRIG, Hans Joachim. A aventura das línguas: uma história dos idiomas do mundo. 4. ed. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2003.

YAMASHIRO, José. Japão: passado e presente. 3. ed. São Paulo, 1997.



[1] A História da Imigração Japonesa Leis Rouanet e PAC-ICMS. Disponível em: http://www.mpfassessoria.com.br/nt_html/917.html. Acesso em: 23 de novembro de 2009.

[2] Uma das formas de utilização da escrita hiragana (formada por letras fonéticas que correspondem, basicamente, a uma sílaba), que aparece sobrescrita (chamada de furigana, nessa posição) na transcrição que fizemos do texto original. Aqui, o furigana tem a função de indicar o modo de leitura do kanji (ideograma) no qual está sobrescrito.
[3] Modo de leitura (do texto japonês) escrito em letras romanas.
[4] De acordo com o dicionário da Shogakukan (1998), essa palavra pode ter os seguintes significados: “Vá”; “Vamos”; “Eia!”; “Coragem!”. Considerando o texto sob análise, iremos atribuir à palavra  o sentido de encorajamento ao povo que deveria emigrar para o Brasil.
[5] Acreditamos que ikau tenha sido uma variação de ikō, termo utilizado atualmente, cujo significado é “vamos”.
[6] Em muitos casos, esses verbos japoneses (verbos de objetividade) correspondem aos verbos da língua portuguesa que necessitam de um objeto direto como complemento.
[7] A ordem frasal da língua japonesa se dá por SOV (Sujeito + Objeto + Verbo), diferentemente do que acontece com o português, com o inglês e com outras línguas (STÖRIG, 2003).
[8] Neste trabalho, considero a figura presente no cartaz como um texto que também é analisado aqui.
[9] O texto dos Quadros 4 e 5 está escrito em cor branca, no rodapé do cartaz.
[10] Texto escrito em cor vermelha, no canto inferior direito do cartaz.
[11] O homem da figura apresenta-se vestido de modo semelhante ao dos trabalhadores rurais japoneses, há alguns séculos: sem camisa (e portando um tecido enrolado ao corpo que apenas cobria as partes íntimas masculinas, como uma espécie de “sungão” – a parte baixa do tronco do homem não é mostrada no cartaz). É interessante dizer que os japoneses que imigravam para o Brasil preocupavam-se em vir trajados com roupas ocidentais.