Sejam Bem Vindos! よろしくお願いします!

Olá pessoal, sejam bem vindos à esta página. Criei este blog para poder compartilhar com vocês algumas informações sobre a língua japonesa, além das minhas impressões acerca desse idioma, suas particularidades, as dificuldades enfrentadas pelos falantes de português do Brasil ao estudar o idioma japonês, e claro, alguns pontos comparativos com o português que considero muito interesssantes.

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CALENDÁRIO COMEMORATIVO DOS 80 ANOS DA IMIGRAÇÃO JAPONESA NA CIDADE DE NERÓPOLIS-GO



Resolvi postar este artigo, no blog sobre a língua japonesa, por acreditar que o desenvolvimento dos fatos após a emigração dos japoneses para Goiás é de grande relevância para entendermos a atual situação do uso da língua japonesa neste Estado.
marley lima

CALENDÁRIO COMEMORATIVO DOS 80 ANOS DA IMIGRAÇÃO JAPONESA NA CIDADE DE NERÓPOLIS-GO*

 




Marley Francisca de LIMA
 (Centro de Pesquisas em Cultura Japonesa de Goiás-CPCJ)


ABSTRACT: The present task is result of a research realized between January and May 2010 by a group of investigators. It is part of a bigger project, planned by Professor Doctor Cecília Noriko Ito Saito, and titled “Collective Imagination: 80 years from Japanese immigration in Nerópolis”.

KEYWORDS: Japanese immigrants; Nerópolis-GO; Japanese immigration to Goiás.


1.Introdução
A pedido da Prefeitura da Cidade de Nerópolis foi elaborado no segundo semestre do ano de 2009, pela Professora Doutora Cecília Noriko Ito Saito, um projeto para a comemoração dos 80 anos da Imigração Japonesa em Nerópolis. Nesse projeto constava a organização de uma festa na Praça Central da Cidade, com exposição de fotos dos imigrantes, barraquinhas de comidas típicas, oficinas de origami, caligrafia japonesa, entre outros, assim como a elaboração de um material em memória dos imigrantes japoneses nessa cidade. Para esse trabalho, coordenado por mim, havia a sugestão da elaboração de um catálogo ou um calendário. No entanto, o grupo designado para a elaboração desse material interessou em trabalhar no desenvolvimento de um livreto. As reuniões para a elaboração desse trabalho iniciaram-se no dia 14 de janeiro de 2010 e logo em seguida começaram as entrevistas e coletas de dados. Após algumas entrevistas surgiram problemas de questões financeiras e o trabalho teve de ser suspenso por cerca de um mês. Ao retomar o trabalho, percebeu-se que o tempo, outrora curto para a realização do livreto, tornara-se impossível para a realização desse mesmo trabalho. Foi nesse momento que foi definido, em nova reunião, que o trabalho sofreria uma mudança de livreto para um calendário do ano de 2011, prevalecendo o mesmo conteúdo e sequência estabelecidos para o primeiro, ficando a ressalva de que posteriormente à elaboração do calendário seria retomado os trabalhos para a elaboração de um livro com o mesmo conteúdo. O trabalho do calendário foi concluído pelo grupo e entregue para a publicação promovida pela Prefeitura da Cidade de Nerópolis no final do mês de maio, para ser entregue na festa de Comemoração dos 80 anos da Imigração Japonesa nessa cidade, no dia 18 de julho de 2010. Para a realização desse trabalho foram utilizados instrumentos de pesquisas como: entrevistas com os primeiros imigrantes e/ou seus descendentes; entrevistas com moradores locais mais antigos; notas de campo; gravação em áudio; análise de documentos; e coletas de fotos antigas dos imigrantes. Para o trabalho de entrevista ficaram como responsáveis a jornalista Lorena Borges e o historiador Marcos Paulo de Melo Ramos, com o apoio do Designer Alexandre Rabelo para o registro fotográfico e de Marley Lima como contato entre o grupo e os entrevistados. Os historiadores João Paulo Silveira e João Patrício Araújo, assim como os demais participantes colaboraram nas entrevistas através de elaboração de perguntas. As entrevistas se davam de forma descontraídas com a participação de todos. Para a redação dos textos foi definido que cada um dos participantes escreveria um ou mais textos. Levando- se em conta o pouco espaço para a inserção dos mesmos foi definido que cada texto deveria conter cerca de 500 toques. Ficou como responsável pela uniformização e correção dos textos, a pesquisadora Tatiana Cavalcante. Ao longo de todo o período de pesquisa e elaboração, o trabalho foi submetido à Professora Doutora Cecília Noriko Ito Saito para avaliação e aprovação. O calendário foi dividido de forma que contasse a história dos imigrantes em ordem cronológica, ficando da seguinte forma:


Página
Conteúdo
1.Capa
Apresentação
3.Mês de janeiro
Japão
5.Mês de fevereiro
Vinda para o Brasil
7.Mês de março
Café em São Paulo
9.Mês de abril
História de Nerópolis
11.Mês de maio
O sonho da terra própria
13Mês de junho
O arroz e o feijão, as verduras e a feira
15.Mês de julho
Trabalho sem patrão
17.Mês de agosto
Iluminando a cidade
19.Mês de setembro
Encontro de famílias
21.Mês de outubro
Conseqüências da II Guerra Mundial
23..Mês de novembro
Flores aos Deuses e aos antepassados
25..Mês de dezembro
Educação
27.Pagina final
Agradecimentos e lista com nome dos colaboradores
Base do calendário

Créditos das fotos (parte inicial)
Calendário de 2012 (parte final)


O formato do calendário ficou assim dividido:
Base: 390x195mm, 4x0 cores em Supremo 350 g.; Miolo: 30 págs, 145x195mm, 4 cores em Couche Liso 145 g.; Corte/Vinco, com Wire-o, Plastificado=1 Lado(s) Base, Verniz UV Total=2 Lado(s) em todas as páginas.


2.História dos imigrantes japoneses em Goiás
Com base no trabalho de Mota (1992) e Saito & Mota (2008), em conjunto com as entrevistas com os imigrantes pioneiros, seus descendentes e os moradores locais mais antigos, pôde-se certificar alguns fatores muito interessantes acerca da presença dos imigrantes japoneses em Nerópolis, tais como: a influência dos mesmos nos hábitos alimentares locais, a cooperação no abastecimento de energia para a Cidade; a importância no surgimento da feira e do comércio local. Para melhor conhecimento desses dados será apresentado a seguir os textos originais publicados no calendário, juntamente com as fotos[1] referentes aos mesmos.

APRESENTAÇÃO[2]
Da chegada das primeiras caravanas de imigrantes japoneses à Colônia do Cerrado, atual Nerópolis, no início do século XX, até à contemporaneidade, inúmeros momentos marcaram a formação de um povo. Resgatar as lembranças desse trajeto intrincado e vitorioso tornou-se parte do cotidiano dos pesquisadores que participaram da produção deste trabalho. Diversas foram as descobertas que ocorreram espontaneamente no vislumbre das histórias guardadas nas imagens que, aqui, convidam-nos a uma cuidadosa apreciação. Parabéns, Nerópolis, pelos 80 anos da imigração japonesa! Prof.ª Dr.ª Cecília Saito.



JANEIRO – JAPÃO
A partir da segunda metade do século XIX, o Japão iniciou seu processo de modernização. E, em poucas décadas, a “Terra do Sol Nascente” tornou-se uma grande nação no contexto capitalista. Contudo, o crescimento econômico do país não conseguiu acompanhar o seu crescimento populacional. Tal impasse social levou muitos habitantes do arquipélago a cogitarem emigrar (sair da terra natal) em busca de melhores oportunidades no exterior. E, inevitavelmente, as mudanças econômicas acabaram forçando a saída de vários grupos de japoneses rumo a outros países. Destacou-se como destino inicial o Havaí, depois os EUA, o Brasil e o Peru.



FEVEREIRO - VINDA PARA O BRASIL[3]
 Em junho de 1908, o vapor Kasatu Maru atracou em Santos trazendo a primeira leva de imigrantes japoneses. Esses imigrantes esperavam permanecer por uns dez anos aqui e depois retornar ao Japão, o que não ocorreu. Principalmente porque as informações acerca do Brasil, no exterior, nem sempre correspondiam à realidade.
Apesar disso, a partir de 1930, a imigração nipônica no país tornou-se intensa. Talvez pelo fato de que as companhias de emigração japonesa responsabilizavam-se pela subvenção dos que aceitavam sair do Japão. Isso incluía não apenas o traslado dos japoneses, mas também a acomodação deles em colônias implantadas nas novas terras.



MARÇO - LAVOURAS DE CAFÉ EM SÃO PAULO
As primeiras levas de imigrantes japoneses foram recebidas com receio por governo e fazendeiros brasileiros. Mas também os imigrantes estavam receosos. Mal instalados em lavouras cafeeiras de São Paulo, depararam-se com idioma, costumes e hábitos alimentares estranhos aos seus. Não tardou para que a insatisfação dos japoneses com o salário que recebiam e com as condições em que viviam desencadeasse sérios conflitos com os fazendeiros. O que, não raro, culminava no rompimento do contrato firmado entre as partes.
Foram atraídos pelo sonho de cultivar café e por vantagens oferecidas por projetos governamentais goianos, que alguns desses desiludidos imigrantes chegaram a Goiás, por volta de 1930.


ABRIL - HISTÓRIA DE NERÓPOLIS[4]
A história de Nerópolis remonta ao final do século XIX, período em que o fazendeiro Joaquim Taveira estabeleceu-se na região, às margens do córrego Capivara.
Em 1898, a Matinha dos Taveiras, primeiro nome dado ao povoado, passou a chamar-se Campo Alegre. Anos depois, a instalação de um posto dos Correios no local e a existência de uma cidade homônima no Estado, exigiu que o antigo povoado agora elevado à categoria de vila, recebesse novo nome. Assim, em 1918, Campo Alegre passou a ser Cerrado.  Somente em 1936, a vila Cerrado tornou-se a cidade de Nerópolis.Foi quando Nerópolis ainda era a vila Cerrado que a colônia japonesa instalou-se ali, originando a designação Colônia do Cerrado.


MAIO – O SONHO DA TERRA PRÓPRIA
Quando chegaram à Colônia do Cerrado, no começo dos anos 1930, os japoneses buscavam terras férteis para o cultivo. Mas logo ficaram decepcionados com o que encontraram, já que as terras cedidas a eles eram impróprias para a produção agrícola.
Os resultados insatisfatórios das primeiras colheitas e uma forte geada na região acabaram de vez com o sonho de algumas famílias imigrantes que, por causa disso, partiram de Goiás rumo ao sul do país.
Os imigrantes japoneses que persistiram em atividades agrícolas no Estado plantaram café e arroz, principalmente. Contudo, o cultivo de hortifrutícolas foi o ponto forte da produção que era vendida na então vila do Cerrado, a atual Nerópolis. 


JUNHO – O ARROZ E O FEIJÃO, AS VERDURAS E A FEIRA
A alimentação goiana, até meados de 1930, era baseada no consumo de arroz, feijão, mandioca e milho. Mas, com a chegada dos imigrantes japoneses a Goiás, sensíveis mudanças ocorreram na gastronomia local. Assim aconteceu com Nerópolis!
No final da década de 1940, as famílias Massuda e Yoshida iniciaram a venda de verduras cultivadas nos arredores da cidade. A família Massuda montou uma banca próxima de onde hoje está o Grupo Escolar José Valente, e Torao Yoshida, por sua vez, logo deixou a venda ambulante da produção de suas hortas para firmar comércio em uma banca na praça da matriz, aos domingos pela manhã. Estavam lançadas, assim, as bases da tradicional feira de domingo de Nerópolis.


JULHO – TRABALHO SEM PATRÃO
Após inúmeras idas a Nerópolis para vender os produtos cultivados em suas fazendas, alguns japoneses decidiram estabelecer-se de vez na cidade. E o desejo de proporcionar melhores condições de vida à família e estudo às crianças foram as suas principais motivações para isso.
Já adultos, vários filhos de imigrantes decidiram criar suas próprias fontes de renda por não gostarem de trabalhar como empregados. Alguns deles, em vez de venderem frutas e verduras na feira, abriram lojas como os antigos “secos e molhados”, onde era possível encontrar de tudo um pouco. Para abastecer seus comércios, esses descendentes chegavam a viajar mensalmente para Minas Gerais e São Paulo.


AGOSTO - ILUMINANDO A CIDADE[5]
Foi apenas por volta de 1940 que Nerópolis recebeu o seu primeiro gerador de energia – movido a querosene -, que, mesmo usado somente por algumas horas no fim do dia, deixou a população deslumbrada. Mas, nos idos de 1949, o desgosto foi geral quando o gerador pifou. Para a sorte da cidade, havia lá um outro gerador de energia. Movido pela força da água, esse outro gerador havia sido construído por Kokichi Massuda para atender à sua propriedade rural e à sua serralheria (a primeira de Nerópolis!), cujo maquinário também era movimentado pela água. Logo, a pedido do Prefeito, o gerador de Kokichi passaria a abastecer a cidade com sua energia até que o outro, de querosene, voltasse a funcionar.


SETEMBRO – ENCONTRO DE FAMÍLIAS
Mesmo morando em fazendas vizinhas, algumas famílias japonesas normalmente passavam meses sem se verem. Suas crianças, entretanto, mantinham contato frequente entre si, já que estudavam todas no Grupo Escolar José Valente, na zona urbana de Nerópolis.
Mas isso não quer dizer que os pais dessas crianças nunca se encontrassem. No começo de cada ano, as famílias japonesas que moravam nos arredores da cidade seguiam uma tradição trazida do Japão: visitavam a casa uns dos outros levando consigo comidas orientais típicas para o encontro. Aqueles que recebiam as visitas também tinham a mesa repleta. E essa troca de cumprimentos pelo ano que começava prosseguia por todo o mês de janeiro.


OUTUBRO – CONSEQUÊNCIAS DA II GUERRA MUNDIAL
Durante a II Guerra Mundial, os japoneses que estavam no Brasil sofreram represálias devido ao posicionamento do Japão no cenário político internacional. Considerados suspeitos, eles não podiam viajar sem autorização ou andar em grupos.
Um dos imigrantes mais antigos de Goiás relembra um episódio, ocorrido nesse período, quando o prefeito de Anápolis resolveu convidar várias famílias japonesas para uma reunião. Segundo ele, ao chegarem à cidade, as famílias hospedaram-se juntas na mesma pousada e acabaram presas. Foi preciso uma intervenção do anfitrião para que o grupo fosse liberado.
Na mesma época, os japoneses também foram obrigados a entregar as armas que possuíam ao governo brasileiro. 

NOVEMBRO - FLORES AOS DEUSES E AOS ANTEPASSADOS
A religião japonesa – fruto do rico sincretismo entre Xintoísmo e Budismo – crê que, ao nascer, o homem recebe o michi (“Caminho”), sua “missão na Terra”. Segundo esse princípio, é por meio da força de vontade, do exercício da virtude e da busca por sabedoria na realização de seu michi que o homem aproxima-se da Pureza e da Plenitude. Nesse percurso, ele precisa reconhecer que a natureza deve ser respeitada e reverenciada.
Para os japoneses, também merecem respeito os antepassados. Estes são reverenciados em cultos domésticos realizados em pequenos altares nos quais há oferta de alimentos e flores a eles e aos Deuses – tradição japonesa mantida em algumas famílias de descendentes brasileiros.




                              
DEZEMBRO – EDUCAÇÃO[6]
Os japoneses dão muita importância à educação. Por isso, existe entre eles o seguinte lema: “Benkyō wa shigoto” (“Estudo é trabalho”). Esse cuidado com a educação dos filhos sempre foi notável nos imigrantes que vieram para a cidade de Nerópolis. Seus filhos estudaram primeiramente na escola da zona rural e, depois, no Grupo Escolar José Valente, localizado na zona urbana da cidade.
Finalizada a etapa de estudos no Grupo Escolar José Valente, alguns imigrantes enviaram seus filhos para continuarem a carreira escolar na cidade de Goiânia. Nessa época, muitas famílias deixaram a cidade de Nerópolis e mudaram-se para Goiânia em função da continuidade dos estudos de seus filhos. 


3.Conclusão
Apesar do pouco tempo para a elaboração desse trabalho, concluímos que foi possível inserir em pequenos textos e algumas imagens o resgate da memória dos imigrantes japoneses que direta e indiretamente colaboraram para a história da Cidade de Nerópolis. Espera-se, a partir de agora, poder dar continuidade à pesquisa para a elaboração do livro em memória a esses mesmos imigrantes, podendo assim deixar registrado nas bibliotecas escolares a influência da comunidade japonesa no Estado de Goiás.

RESUMO: O presente trabalho é resultado de uma pesquisa realizada durante os meses de janeiro a maio de 2010, por um grupo de pesquisadores, para compor o projeto elaborado pela Profª. Drª. Cecília Noriko Ito Saito, intitulado de “Imaginário Coletivo: 80 anos da imigração japonesa em Nerópolis”.

PALAVRAS-CHAVES: Imigrantes japoneses; Nerópolis-GO;  imigração japonesa para Goiás.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

GOIÁS, Associação Nipo-Brasileira (org.); MOTA, Fátima Alcídia Costa (Org.); SAITO, Cecília Noriko Ito (Org). Meia volta ao mundo: Imigração Japonesa em Goiás. 1ª. ed. Goiânia-GO: ANBG, 2008. v. 1. 240 p.
HANDA, Tomoo. O imigrante japonês: História de sua vida no Brasil. São Paulo: T. A. Queiroz: Centro de Estudos Nipo-Brasileiros,  1987.
MOTA, Fátima Alcídia Costa. Imigração japonesa em Goiás: a colônia ou a ilusão do Cerrado? 1992. 227 f. Dissertação (Mestrado em História) – Departamento de História , Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 1992.
MAGALHÃES, Sonia Maria de. Alimentação, saúde e doenças em Goiás no século XIX. Tese (Doutorado em História) – Universidade Estadual Paulista, Franca, 2004.




* Este trabalho foi realizado por um grupo de 8 pessoas, a partir do projeto da Comemoração dos 80 anos da Imigração Japonesa na Cidade de Nerópolis elaborado pela Profª. Drª. Cecília Noriko Ito Saito. Os pesquisadores que colaboraram para que este projeto pudesse ser realizado foram: Alexandre Rabelo Silva – Designer Gráfico e Diagramador; Cecília Noriko Ito Saito – Professora Doutora em Artes; Lorena Borges – Jornalista e Professora Universitária; João Patrício Araújo – Professor de História; João Paulo Silveira – Professor Mestre em História; Marcos Paulo de Melo Ramos – Professor Mestre em História; Marley Francisca de Lima – Professora de Língua Japonesa e Língua Portuguesa, e Bacharel em Lingüística; Tatiana Cavalcante – Professora Mestre em Linguística e Revisora.

[1] As fotos foram selecionadas a partir de inúmeras fotos cedidas por descendentes dos imigrantes pioneiros.

[2] Com exceção das fotos referentes aos meses de fevereiro, abril e agosto, as demais foram cedidas por Mauro Yoshida.
[3] Foto cedida por Jorge Sano.
[4] Foto cedida por Eva Maria de Moraes.
[5] Foto cedida por Lorena Borges.
[6] A escolha para o tema ‘Educação’ ser apresentado no mês de dezembro se deve ao fato de que a educação formal dos filhos foi o principal motivo que incentivou os imigrantes a deixarem a Cidade de Nerópolis. 

Fonte: Arquivo pessoal (2010)

Obs.: Este artigo foi escrito após apresentação deste trabalho no VIII Congresso Internacional de Estudos Japoneses no Brasil / XXI Encontro Nacional de Professores Universitários de Língua, Literatura e Cultura Japonesa, quando então representei, em nome do Centro de Pesquisa em Cultura Japonesa de Goiás (CPCJ),  o grupo responsável pela elaboração do calendário.
Obs.2: Infelizmente houve falha na correção da língua japonesa por minha parte, e deixei passar a inversão dos dias da semana em japonês, que deveriam começar a contagem na segunda-feira e não no domingo. A parte dos mesmos, em português, estão em ordem correta.


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POR QUE APRENDER JAPONÊS: ENTRE A MOTIVAÇÃO INSTRUMENTAL E O SÍMBOLO DE ETNICIDADE


Posto este artigo por acreditar que, através dessa pesquisa pode-se entender o processo de desenvolvimento da língua japonesa, desde o momento da chegada dos japoneses em Goiás até hoje. Acredito que os fatores desencadeados durante esse processo foram decisivos para determinar a situação do uso da língua japonesa atualmente entre os membros da comunidade japonesa residentes em Goiás.


POR QUE APRENDER JAPONÊS: ENTRE A MOTIVAÇÃO INSTRUMENTAL E O SÍMBOLO DE ETNICIDADE

Marley Francisca de LIMA


ABSTRACT: This study was developed in the Japonese School of the Associação Nipo-Brasileira de Goiás. Most of the participants are Japonese immigrant decendants who did not acquire the Japonese language from their parents and who have found in the school the opportunity to fulfill this lack in their lives.

KEYWORDS: Bilingualism; motivation; Japanese language learning.

Introdução
Este estudo traz os resultados de um projeto de pesquisa que resultou no trabalho de final de curso do Bacharelado em Lingüística da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás. O trabalho teve como cenário a comunidade japonesa em Goiânia, representada neste estudo pelos alunos de uma escola da comunidade. Os estudos sobre falantes de imigrantes na região de Goiás têm sido raros, senão inexistentes, visto que o Estado caracteriza-se mais pela migração do que pela imigração. Por ser de significativa relevância o desvelamento da situação sociolingüística e de bilingüismo dessas comunidades, nos propomos neste estudo, de natureza qualitativa, compreender as motivações que levam os descendentes de japoneses, na sua maioria monolíngües em português, a aprender a língua japonesa no contexto desta escola e suas implicações para o processo de ensino e aprendizagem. Além disso, também procuramos identificar quais fatores contribuem para que a língua ainda esteja presente no domínio familiar no caso de alguns, enquanto que ausente no caso de outros.
Desse modo, tendo em vista os objetivos propostos, iniciamos este estudo com as seguintes perguntas de pesquisa:

1) Quais motivações levam os alunos desta escola a investir na aprendizagem da língua japonesa?
2) A língua japonesa é de alguma forma usada/falada no domínio familiar? Quando e em que situações.
3) Quais fatores contribuem para que a língua japonesa seja usada ou não em casa entre os familiares?

Para responder estas e outras perguntas que surgiram no decorrer do estudo nos apoiamos no paradigma qualitativo de pesquisa, de cunho etnográfico (LÜDKE e ANDRÉ, 2005; ERICKSON, 1986). Optamos por esta abordagem por acreditar que ela possibilita a interpretação dos registros de dados com base tanto no referencial teórico e na visão do pesquisador, quanto na percepção dos participantes da pesquisa. Também recorremos aos estudos de bilingüismo (BAKER, 1997; MELLO, 1999, 2003; PRUDENTE, 2006; entre outros) e da sociolingüística para melhor compreender a situação de imigração ao longo das gerações, na qual se encontram inseridos os participantes do estudo.


Contexto da pesquisa
A pesquisa foi realizada em uma escola de língua japonesa[1], situada nas dependências da Associação Nippo-brasileira de Goiás[2], na cidade de Goiânia. Esta escola iniciou suas atividades no início de 1999 com a finalidade de divulgar a língua e a cultura para a comunidade goiana. Foi construída com subsídios do governo japonês e também com a ajuda da comunidade nipo-brasileira, cada parte contribuindo em cerca de cinqüenta por cento dos custos. Atende tanto a comunidade nipônica quanto os não pertencentes à ela. As aulas são ministradas, em sua maioria, nas tardes de sábado. Durante o período das entrevistas para ao presente trabalho, a escola contava com oito professoras, sendo uma nativa, seis descendentes e uma não descendente, todas com experiências no Japão, e cerca de 110 alunos, distribuídos em 14 turmas[3]. Estas, por sua vez, divididas em Jido (3-5 anos), Júnior (6-14), Seijin (acima de 15 anos, curso básico) e Chukyu (curso intermediário). O corpo administrativo da escola é formado por uma comissão voluntária de associados da ANBG, denominada “Uen iin kai”, e subordinada à esta mesma associação.


Os participantes da pesquisa
Os participantes deste estudo totalizam trinta e seis pessoas com idades que variam entre cinco e cinqüenta e três anos. Do total de participantes, dez residem fora de Goiânia, sendo quatro em Nerópolis, dois em Anápolis, dois em Inhumas e dois na cidade de Goiás. A maioria dos alunos, num total de 26, pertence à terceira geração (sansei), cinco são da segunda geração (nisei), quatro da quarta geração (yonsei) e apenas um, issei, é de primeira geração[4].


Dados do questionário feito com alunos da EMLJG

Faixa etária
A faixa etária dos alunos entrevistados variou entre  5 e 53 anos, sendo o maior número de alunos entre 11 e 20 anos, e 10 com faixa de idade entre 5 e 10 anos.  Destes últimos, muitos estudam na escola desde a idade de 3 ou 4 anos.

Grau de descendência[5]
À época[6] da entrevista com os alunos, a escola pesquisada contava com um número de 57 alunos descendentes de japoneses. No entanto, por motivos relacionados ao tempo, só foi possível realizar a pesquisa com 64 % desses alunos. Dos alunos entrevistados, 1 é nascido no Japão e filho direto de japonês, portanto foi considerado como issei; 5 são filhos de imigrantes; 26 são netos; e 4 são bisnetos de imigrantes. Apenas 2 dos alunos tem mãe nascida no Japão, enquanto que 13 são filhos de mãe brasileira, sem ascendência japonesa, das quais apenas duas falam o idioma japonês. Levando-se em conta que a mãe tem papel fundamental na aquisição da linguagem pela criança, a maioria dos entrevistados filhos de mães brasileiras não adquiriu o idioma japonês. Dos pais, 7 são issei, ou seja, japoneses que vieram para o Brasil como imigrante.

Número de alunos entrevistados por turmas
Dos 36 alunos entrevistados, 16 faziam parte da turma Júnior (6-14 anos), e 16 da turma Seijin (adultos), sendo 3 da turma Jido (3-5 anos) e apenas um da turma Chukyu (intermediário).

Motivações para estudar o idioma japonês
A partir das respostas 1-5 sobre o motivo de estudar o idioma japonês, pôde-se perceber um interesse em resgatar a cultura que havia sido ignorada até então, como na justificativa de querer reconciliar-se com o passado citada por uma das alunas entrevistadas. Filha de pai nissei e mãe brasileira sem ascendência, ela estava estudando o idioma pela primeira vez, após os 40 anos, e afirma se sentir culpada por não ter dado o devido valor à cultura da família de seu pai. Relatou ainda que desde criança, ela e seus irmãos deram mais valor aos costumes da família brasileira, uma vez que na casa dos avós brasileiros podiam ter mais liberdade, em contrapartida à rigidez da casa dos avós japoneses. Somado à isso, ela completou dizendo que eles não puderam aprender o idioma japonês pelo fato de a mãe ser brasileira e não falar japonês.
Outra resposta interessante foi de um aluno que resolveu estudar o idioma japonês para compreender o que os parentes de São Paulo conversam com seus avós quando vêem à Goiânia para visitá-los.
Em relação à pergunta sobre o significado em estudar japonês, alguns alunos responderam que se orgulham em estudar o idioma, outros justificaram como sendo algo indispensável para o seu viver. Outro aluno respondeu que passou a entender melhor o pensamento de seus avós à medida que foi aprendendo o idioma.
Indagados se falam ou não o japonês em casa, a maioria dos alunos respondeu que não. Alguns justificaram que não falam porque a mãe (ou a esposa) é brasileira e não conhece o idioma. Outros responderam que não tem com quem falar em casa, pois os pais mesmo sendo filhos ou netos de migrantes japoneses não falam o idioma japonês.
Apenas 2 alunos disseram que em casa fazem uso apenas do japonês. Um deles afirmou que usa o idioma em casa porque o pai é japonês, e o outro disse que em sua casa todos falam o idioma japonês porque já moraram no Japão. É interessante observar que estes dois alunos são filhos de mães brasileiras não descendentes de japoneses.

Conclusão
Pôde-se concluir que a língua japonesa não é regularmente utilizada pelos membros da comunidade pesquisada. A partir da análise dos dados e do estudo da literatura sobre os imigrantes na região, concluiu-se que existem pelo menos 4 razões que levaram os imigrantes e seus descendentes a deixarem de usar a língua japonesa regularmente entre si: 1) posição geográfica em que os imigrantes se encontravam; 2) necessidade profissional; 3) educação dos filhos; e 4) casamento com brasileiros (as) não descendentes.
A primeira delas refere-se à posição geográfica. Alguns dos participantes deste estudo relataram que no início moravam isolados do grupo, o que dificultava a socialização do idioma, restringindo o uso do mesmo ao domínio familiar. Esse fato vai ao encontro do que Mota (1992) afirma sobre o fato de que muitos migrantes que faziam parte da Colônia do Cerrado teriam se deslocado para outros municípios após descobrirem que haviam sido enganados.
A segunda razão diz respeito à necessidade profissional. Segundo relato dos participantes, desde o início eles precisaram aprender o português, pois tratavam de negócios diretamente com habitantes locais. Como exemplo disso, tem-se o relato do avô de um dos alunos entrevistados. Segundo ele, possuía um armazém na cidade de Nerópolis e sua clientela era basicamente formada por não falantes do japonês.
A terceira razão apontada como educação dos filhos, refere-se ao fato de que alguns dos filhos de migrantes falavam apenas o idioma japonês até 6, 7 anos de idade. Entretanto, após ingressar na escola, aprendiam o português e deixavam de usar o idioma japonês regularmente, como é o caso de um dos alunos entrevistados. Segundo ele, desde então, praticamente não usa o japonês com seus pais. Uma outra aluna, em conversa informal, relatou que seu tio, hoje com mais de 40 anos, se recusa a falar em japonês. Segundo ela, até a idade escolar ele falava apenas o idioma japonês, e após ingressar na escola, além da dificuldade em aprender o português, passou por muitos momentos constrangedores pelo fato de apresentar influência do japonês na pronúncia do português. Tanto ele, quanto o aluno citado anteriormente não ensinaram o japonês para seus filhos.
A quarta razão apresentada como justificativa para o desuso da língua diz respeito ao fato de alguns dos descendentes dos migrantes japoneses terem se casado com brasileiros não descendentes de japoneses. A maioria destas uniões nipo-brasileiras é formada por um noivo Nikkei (descendente de japonês) e noiva brasileira, e raramente por noiva Nikkei e noivo brasileiro. Dos alunos entrevistados, 13 têm mãe brasileira que não é descendente, enquanto apenas 4 têm pai que não possui ascendência japonesa. Desses alunos, muitos disseram não ter aprendido o idioma japonês pelo fato de suas mães serem brasileiras e não falarem o japonês. Ainda, segundo relato do avô de um dos alunos ele e sua esposa evitavam falar em japonês durante as reuniões familiares, para não constranger as noras que são brasileiras sem ascendência japonesa e não falam o idioma japonês.
Com base na conclusão de que os descendentes de japoneses entrevistados não falam o idioma japonês pelas razões apresentadas anteriormente, sugiro que para aplicação do ensino da língua japonesa nesta comunidade, esta problemática seja considerada. Afinal, os alunos descendentes, em sua maioria, ingressam nesta escola sem ter um pré-conhecimento da língua japonesa.


BIBLIOGRAFIA
BAKER. Fundamentos de educación bilingüe y bilingüismo. Traducción de Ángel Alonso-Cortés. 1. ed. Madrid: Ediciones Cátedra, S.A., 1997.
LÜDKE, Menga; ANDRÉ, Marli E. D. A. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPU, [1986] 2005.
MELLO, Heloísa Augusta Brito de. Codeswitching: uma estratégia discursiva de bilíngües. 1996. Dissertação (Mestrado em Letras e Lingüística) – Departamento de Letras e Lingüística, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 1996.
________, Heloísa Augusta Brito de. O falar bilíngüe. Goiânia: Ed. Da UFG, 1999.
MOTA, Fátima Alcídia Costa. Imigração japonesa em Goiás: a colônia ou a ilusão do Cerrado? 1992. 227 f. Dissertação (Mestrado em História) – Departamento de História, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 1992.
PRUDENTE, Mabel Pettersen. Das montanhas ao cerrado: recortes sociolingüísticos da comunidade árabe em Goiânia, 2006. 182 f. Dissertação (Mestrado em Letras e Lingüística) - Departamento de Letras e Lingüística, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2006.
Documento da Comissão Pró-Construção. “Contribuição Espontânea” – Projeto: Fundos para construção de escola de língua japonesa. Goiânia, 1997.
Revista de Comemoração dos 10 anos da Escola Modelo de Brasília, 1999.


[1] Denominada Escola Modelo de Língua Japonesa de Goiás, doravante EMLJG.
[2] Doravante ANBG.
[3] Atualmente, a Escola possui um quadro de 8 professores (duas nativas, quatro descendentes e dois não-descendentes de japoneses), e um número aproximado de 113 alunos.
[4] O termo issei empregado aos imigrantes refere-se ao cidadão japonês que emigrou para outro país.  No entanto, o aluno aqui considerado issei é, na realidade, nihonjin (cidadão japonês), pois trata-se de uma criança filha de pai issei e nascida no japão durante o período em que os pais trabalhavam como dekasegi.
[5] Para definir o grau de descendência do aluno, foi considerado o grau de descendência mais próximo. Por exemplo, se o pai é nisei e a mãe sansei, considerou-se o grau de descendência do pai, portanto o aluno entrou para a classificação como sansei.
[6] Final de 2006.

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ARTIGO 2 - O ETHOS EM UM CARTAZ JAPONÊS


Este artigo foi escrito no final de 2009, como atividade avaliativa da disciplina de Texto e Discurso, ministrada pela Professora Elza Kioko Nakayama Nenoki Murata (Faculdade de Letras -Universidade Federal de Goiás).


O ETHOS DISCURSIVO

EM UM CARTAZ JAPONÊS

MARLEY FRANCISCA DE LIMA

RESUMO: O presente trabalho tem por objetivo analisar o ethos discursivo da mensagem publicitária de um cartaz japonês do início do século passado cujo objetivo era promover a emigração de japoneses para o Brasil. Por meio da análise das modulações enunciativas que projetam traços de caráter e corporalidade na enunciação, recuperados nos elementos composicionais do próprio texto publicitário em sua interação com os co-enunciadores, pudemos verificar que o ethos visado pela enunciação publicitária fez-se coincidir com o ethos construído pelos co-enunciadores em virtude da mobilização afetiva que a mesma provocou nestes últimos.    

PALAVRAS-CHAVES: ethos discursivo, fiador, imigração japonesa para o Brasil.







INTRODUÇÃO
No fim do século XIX, o Japão enfrentava uma grande tensão social causada pelas profundas transformações econômicas e políticas por que passava a nação. Isso se deu no período de instalação do governo do Imperador Mutsuhito Ishin Meiji, em 1868, o qual deu início ao processo de modernização do Japão.
Como conseqüência do processo de modernização promovido pelo Imperador, ocorreu generalizada falência de grande parte dos pequenos e médios produtores rurais, que perdiam suas terras e aumentavam o desemprego e a miséria no campo e nas cidades para onde migravam. Como o setor industrial não conseguia acolher toda a mão-de-obra ociosa e o excesso de população agravava a escassez de comida, o governo japonês resolve, então, estimular e facilitar a emigração no país.   
Para tanto, foram criadas as Companhias de Emigração – empresas privadas que recebiam incentivo político e econômico do governo do Japão – intermediavam a contratação da mão-de-obra japonesa por parte dos países que aceitaram recebê-la como imigrante.


Eram elas que negociavam os candidatos, providenciavam os meios de transporte e se responsabilizavam pelo cumprimento dos contratos. Também eram elas que, para expandir seus negócios recrutando o maior número possível de candidatos à emigração, difundiam a imagem paradisíaca do país de destino. Assim, os primeiros imigrantes que aqui chegaram acreditavam que tinham desembarcado no “Novo Eldorado”, a fantástica “terra das árvores de frutos de ouro”.[1]

Considerando-se as significativas levas de japoneses que deixaram seu país incentivados pelo próprio governo do Japão, buscamos compreender, neste trabalho, os recursos publicitários utilizados na produção de um cartaz que convidava um determinado público a partir para a América Latina. De modo mais específico, buscamos analisar o ethos discursivo da mensagem publicitária de um cartaz japonês do início do século passado cujo objetivo era promover a emigração de japoneses para o Brasil.
Para alcançar o objetivo a que nos propomos, analisamos as modulações enunciativas que projetam traços de caráter e corporalidade na enunciação, recuperados nos elementos composicionais do próprio texto publicitário em sua interação com os co-enunciadores.
Este estudo está situado no âmbito da Análise do Discurso e baseia-se, fundamentalmente, nas noções de ethos discursivo de Maingueneau (2005).


1. REFERENCIAL TEÓRICO
 A importante e fundamental noção sobre a qual se desenvolve este trabalho é a noção de ethos desenvolvida por Maingueneu (2005) a partir de uma elaboração conceitual primária feita por Aristóteles, para quem o ethos representava o caráter do orador.
A perspectiva pela qual Maingueneau (ibid.) defende sua abordagem de ethos, embora não totalmente apartada da concepção aristotélica, diferencia-se desta por ir além do domínio da argumentação. Enquanto a argumentação segue às voltas com a persuasão que busca exercer sobre seu público, Maingueneau propõe uma abordagem de ethos que abrange o processo de adesão dos sujeitos a um determinado discurso. Algo bastante evidente quando o discurso analisado é o publicitário, por exemplo. Além disso, Maingueneau se apóia em uma noção de ethos que abarca todo tipo de texto, tanto os orais como os escritos, enquanto a retórica tradicional manteve o ethos restrito à oralidade em situações de fala pública (assembleias, tribunal etc.).
Ao ethos de Maingueneau são atribuídos um “caráter” e uma “corporalidade” cujos graus variam em cada texto. Caráter esse associado a traços psicológicos que manifesta, enquanto a corporalidade vincula-se à sua compleição física e à vestimenta com que se apresenta. O destinatário apreende esse caráter e essa corporalidade como uma maneira de se mover no espaço social que é avaliada segundo paradigmas estereotípicos que a enunciação confronta ou reforça.
Segundo Maingueneau (2005), o “fiador”, construído pelo co-enunciador a partir de índices liberados na enunciação, associa-se ao ethos (em suas dimensões verbal, física e psíquica) pelas representações coletivas estereotípicas do público. Para o autor, “O fiador implica ele mesmo um “mundo ético” do qual ele envolve algumas situações estereotípicas relacionadas a comportamentos. Sobre tais estereótipos é que a publicidade contemporânea se apóia” (2005, p. 18).
Maingueneu (ibid.) afirma ainda que, embora a concepção de ethos esteja suscetível a amplas zonas de variação, alguns princípios mínimos podem ser definidos: o fato de que o ethos é uma noção discursiva (é construído por meio do discurso, não é uma “imagem” do locutor exterior à sua fala); o ethos é, basicamente, um processo interativo de influência sobre o co-enunciador; e uma noção híbrida (sócio-discursiva), que não pode ser dissociado de uma situação de comunicação específica.  
O autor afirma que, apesar de o ethos estar diretamente ligado ao ato da enunciação, deve-se considerar que o público pode construir, previamente ao discurso, a representação do ethos do enunciador. Daí, tem-se a co-existência de um ethos discursivo e de um ethos pré-discursivo. No entanto, Maingueneau explica que em determinadas situações não há a necessidade de que o púbico tenha representações do ethos pré-discursivo do locutor, como no caso de textos de autores desconhecidos. Diferentemente, no campo da política e das celebridades presentes na cena midiática, os sujeitos estão associados a um ethos não-discursivo que cada enunciação sua pode confirmar ou infirmar. Desse modo, a enunciação opera como um meio pelo qual os enunciadores oferecem pistas que tornam possível aos co-enunciadores confirmar ou infirmar a representação que conhecem do ethos desses sujeitos.
Concluída, aqui, a exposição de nossos principais referenciais teóricos, passaremos à análise de nosso objeto de estudo no tópico a seguir.



2. ANÁLISE DOS DADOS
Conforme afirmamos anteriormente, a crise que se instaurou no Japão com a instauração da Era Meiji, no final do século XIX, obrigou o governo japonês a incentivar a migração do seu povo. Inicialmente os migrantes foram direcionados à região norte do Japão (Hokkaido) e, posteriormente, com o agravamento da situação, o governo começou a incentivar a emigração para outros países, logo após a abertura dos portos japoneses, que há muito estavam fechados.
À princípio, os japoneses emigraram para Havaí, Austrália, Nova Caledônia, México, Peru, Filipinas e Canadá. Somente no início do século XX, os japoneses emigraram para o Brasil, formando, neste país a maior colônia de japoneses fora do Japão (REZENDE, 1991; YAMASHIRO, 1997; LIMA, 2009).
Até 1921, o governo do Estado de São Paulo fornecia subsídios à imigração japonesa que vinha suprir a necessidade de braços na lavoura de café. Rompidos os subsídios brasileiros, o governo japonês decidiu financiar sozinho a vinda de imigrantes para o Brasil diante do caos em que se encontrava o Japão no período que antecedeu e sucedeu a grande crise econômica internacional causada pela quebra da Bolsa de Nova York, em 1929.
Em 1925, para incentivar os japoneses a seguirem jornada rumo ao distante Brasil, foi confeccionado e distribuído um cartaz (reproduzido no Anexo 1) que convidava o povo nipônico a emigrar para as terras brasileiras juntamente com os seus familiares. A esse cartaz publicitário foi atribuída fundamental importância na colaboração do incentivo à vinda dos japoneses para o nosso país; tal é a razão pela qual nos dispomos a analisá-lo, sob o prisma da noção de ethos discursivo defendida por Maingueneau (2005). Nessa análise, pretendo identificar o que marca a presença do ethos discursivo do enunciador – nesse caso, o governo japonês – no cartaz em estudo.
Destacamos que, na época da divulgação do cartaz mencionado, existiam boatos no Japão de que havia no Brasil “árvores de dinheiro”; que tudo o que era plantado aqui, colhia-se em abundância; e que, em poucos anos de Brasil, os japoneses conseguiriam juntar dinheiro suficiente para retornar ao Japão e lá se restabelecer.  
Para iniciarmos, então, a análise do cartaz selecionado para este trabalho, reproduzimos o texto verbal do anúncio tal qual aparece em sua escrita original, apenas acrescentando a ele o seu furigana[2] correspondente. Em seguida, apresentamos o modo de leitura do referido texto em japonês na forma romanizada. E, por último, fazemos a tradução do texto analisado para o português.

2.1 Texto central do cartaz

QUADRO 1
Texto original
さあ、いかう。 一家いっかをあげて 南米なんべいへ。
Texto em romaji[3]
Sā, ikau. Ikka o agete nanbei e
Tradução do texto
Hei, vamos para a América do Sul com toda a sua família.

Em さあ、いかう。 一家いっかをあげて 南米なんべいへ。(“Hei, vamos para a América do Sul com toda a sua família.”)percebe-se que as palavras escolhidas pelo enunciador e a forma como essas são distribuídas ao longo do texto influenciam o modo de representação do seu ethos. O enunciado transmite a mensagem de incentivo à emigração, segundo a qual o enunciador e o seu público trabalharão juntos na nova terra.
Ao utilizar a forma verbal “vamos”, o enunciador lança mão de um “nós” implícito que inclui o interlocutor. Isso equivale a dizer que o “Hei, vamos” corresponde, em termos semânticos, a “Hei, agora nós (eu e você) vamos”. Essa escolha lexical revela um planejamento textual que promove a incorporação do co-enunciador com o ethos do enunciador.
Tomando, aqui, a noção de auditório de Perelman (1996 apud Greco, 2008: p. 628), que faz distinção entre o auditório universal e o auditório particular, verificamos que a enunciação no cartaz remete a um público específico que é o seu “auditório particular”.
Além disso, “o sujeito fala do lugar social do pobre e do trabalhador, para que haja a identificação do enunciador com esses co-enunciadores e, por intermédio dessa identificação, consiga a adesão das pessoas” (Greco, 2008: p. 630).
Na enunciação, o texto é produzido da seguinte forma:

QUADRO 2
[4],
ikau[5].
Ikka
o
agete
nanbei
e

V
O

V
O

Vamos
família
Partícula que, neste caso, acompanha verbos que os japoneses chamam de verbos de objetividade[6].
toda, inteira
América do Sul
Partícula que indica direção.

No enunciado, apenas o trecho em destaque apresenta a ordem regular da sentença japonesa (SOV[7]). E é justamente o deslocamento dos demais elementos no enunciado o fator responsável pelo tom (MAINGUENEAU, 2001) de “incentivo” e de “chamamento” que o texto adquire. De modo mais específico, destacamos o deslocamento do verbo “ir” como o causador da ênfase dada ao convite divulgado no cartaz. Na ordem frasal regular da língua japonesa (SOV), o enunciado ficaria da seguinte forma:

QUADRO 3
,
Ikka
o
agete
nanbei
e
ikau.

O

V
O

V

O Quadro 3 mostra que, em uma construção regular, o verbo “ir” do anúncio japonês estaria no final da sentença e não no início dela, como foi veiculado no cartaz. Podemos afirmar, então, que o deslocamento dos termos no enunciado do cartaz muda o tom que, de outro modo, o texto teria. Assim, aquela que seria uma simples frase convidando os japoneses a emigrar para a América do sul, com o deslocamento do verbo “ir”, torna-se um chamamento incisivo. No cartaz, o convite reforçado se realiza como um brado que convoca seu público-alvo a ir para o Brasil. Verifica-se, consequentemente, que o discurso institui uma situação de enunciação que o torna pertinente à situação sociopolítica do Japão naquele momento.
            No texto central do cartaz, o sujeito não se faz presente de um modo explícito, mas implícito. Pela flexão do verbo utilizado, percebemos o interlocutor inscrito com o locutor na cenografia daquele discurso e manifesto textualmente naquilo que, em português, classificamos como sendo a 1ª pessoa do plural do verbo “ir”, “vamos”. Observamos aqui que essa classificação de pessoa não ocorre na língua japonesa.


Enunciador
O enunciador, neste texto[8] é o governo japonês, que tinha interesse que parte de sua população emigrasse devido a um grande número de problemas vividos pelo Japão naquele período. Portanto, a forma como ele produz o seu discurso, seja através da ordem frasal (que dá um sentido de evocação mais intenso), ou ainda através do mundo ético, ele alcança o público e atinge as pessoas interessadas em emigrar do Japão.


O fiador
No texto sob análise, o fiador torna-se evidente na junção do texto verbal com o texto não verbal (a imagem do homem indicando o Brasil no mapa). Contudo, esse fiador não é designado e nem visível no primeiro plano do cartaz (constituído pela figura e pelo convite em destaque); ele é apenas percebido. E isso acontece por meio da leitura que os destinatários fazem dos índices liberados na enunciação.
Há que se considerar, aqui, que também fazia parte do ethos pré-discursivo do cartaz (o que contribuía na construção que os co-enunciadores faziam do fiador, de algum modo) o conhecimento que a população japonesa tinha de que aquela ‘terra prometida’ ficava bem próxima ao Peru, país para onde já haviam emigrado muitos de seus compatriotas, no século XIX. Possivelmente, esse fato tenha favorecido uma maior credibilidade ao convite que o governo japonês fazia; afinal, de certo modo, aquele não era um caminho tão novo.


O mundo ético
A ativação do mundo ético, no cartaz, faz-se com base em uma representação estereotípica dos japoneses campesinos que sofriam com a crise pela qual passava o país.
A figura do homem, apresentada significativamente maior do que sua família, remete à importância que o mesmo tem tanto na organização quanto na manutenção do grupo. Além disso, também percebemos no texto não verbal do cartaz a representação estereotípica de um comportamento que notadamente caracteriza a sociedade japonesa: o respeito ao núcleo familiar.
O fato de o camponês ser retratado junto com sua família ainda pode ser explicado pelo ethos pré-discursivo daquele anúncio. Esse referido ethos estava constituído, dentre outros fatores, pela exigência feita pelo governo japonês (mas não explícita verbalmente no cartaz) de que não fosse autorizada a emigração de indivíduos sozinhos, apenas de grupos familiares. Ou seja, a mensagem do texto não verbal do cartaz corrobora o ethos pré-discursivo conhecido pelos co-enunciadores, ao mesmo tempo em que é explicada por ele.   



2.2 Texto do rodapé do cartaz
O texto do rodapé do cartaz apresenta as marcas de um “ethos dito”, de um ethos sinalizado nas enunciações que informam o nome e a localização do órgão responsável pelos contratos de imigração (textos reproduzidos nos Quadros 4, 5 e 6, a seguir). Nesse ethos dito reconhecemos a identidade de quem realmente profere o discurso que convida à emigração: uma Companhia de Emigração autorizada pelo governo japonês. Assim validada, a enunciação do cartaz atraía para si a confiabilidade que a nação japonesa atribuía ao seu governante.

QUADRO 4 (Texto 1)[9]
Texto original
       社会局援助しゃかいきょくえんじょ
Texto em romaji
        Shakai Kyoku Enjo
Tradução do texto
        Departamento Social de Auxílio



QUADRO 5 (Texto 2)
Texto original
       海外興業株式会社かいがいこうぎょうかぶしきがいしゃ
Texto em romaji
        Kaigai Kōgyō Kabushiki Gaisha
Tradução do texto
        Empresa de Assistência aos Emigrantes
Obs.: No texto original, há o endereço da empresa (situada em Tóquio) após seu nome, mas não foi possível recuperá-lo.



QUADRO 6 (Texto 3)[10]
Texto original
       業務代理人事務所ぎょうむだいりにんじむしょ
Texto em romaji
        Gyōmu Dairinin Jimusho
Tradução do texto
        Escritório do Procurador do Trabalho
2.3 Texto não-verbal do cartaz

O texto não-verbal é o que aparece em primeiro plano no cartaz e, acreditamos, o que possui maior valor apelativo no quadro completo da enunciação. Trata-se da figura de um homem, caracterizado, pelo tipo de sua vestimenta e pela ferramenta que traz na mão esquerda, como um trabalhador agrícola. Nesse mesmo braço, o homem sustenta a família que leva consigo – a esposa e os filhos. Nas mãos de uma das crianças, percebe-se uma pequena flâmula japonesa – o valor patriótico associado à identidade da nação.
A mão direita da figura apresentada no cartaz indica, no mapa cujo recorte destaca quase todos os países da América do Sul, o Brasil como o local a que seriam enviados os emigrantes japoneses.
No cartaz sob análise, apreendemos o ethos de um enunciador que encarna o estereótipo do japonês campesino, um trabalhador agrícola. Este, um homem que zela por sua família e está pronto para o trabalho pesado. Na enunciação, ao invés da propaganda do produto (que, no entanto, figura como um ethos pré-discursivo – a terra paradisíaca distante), constata-se a valorização dos hábitos locucionais de um público específico ali representado e de seu modo de habitar o mundo (valorizando a família, utilizando uma ferramenta agrícola e vestindo-se[11] de modo apropriado à tarefa que executa) como um recurso utilizado pelo enunciador para favorecer a adesão desse público ao discurso produzido.
No cartaz em estudo, o fiador é designado e visível na enunciação. Vemos a ativação do mundo ético na forma impactante com que o estereótipo do trabalhador rural é representado na enunciação por meio de recurso não verbal. Tal enunciação promove a construção de um ethos que mobiliza a afetividade do destinatário em meio à sua experiência sensível do discurso. Nessa condição, o destinatário tende fortemente a não olhar com suspeição para o convite feito no texto. Ou seja, o co-enunciador tende a desconsiderar a possibilidade de estar interagindo com um ethos enganador. Fato esse que, posteriormente, os emigrantes japoneses puderam confirmar ao constatarem que os propalados benefícios a eles prometidos a respeito das novas terras não se cumpririam. Sobre a decepção que sofreram essas pessoas, Rui Kban Sano registra uma espécie de “canto-lamento” entoado pelos imigrantes “vindos da longínqua terra do arroz e do imperador para a terra do café e do coronel” (p. 40):

Mentiu quem disse o Brasil era bom,
mentiu a Companhia de Emigração:
no lado oposto da terra cheguei,
fiado no Paraíso, para ver o Inferno.
Do jeito como vão as coisas,
não passa de puro sonho
o dia de retorno glorioso.
Já que o fim é a morte por inanição,
melhor então é ser comido
por onça, por bicho qualquer.

Frustrados na nada paradisíaca terra brasileira, os imigrantes japoneses reconheceram o engodo do qual foram vítimas. Simplesmente porque se deixaram convencer pelo poder de persuasão de um discurso que constrangia “o destinatário a se identificar com o movimento de um corpo, seja ele esquemático ou investido de valores historicamente especificados” (MAINGUENEAU, 2005: p. 29). Não julgamos, aqui, a lisura dos países e Companhias de Emigração envolvidos na contratação da mão-de-obra japonesa e, menos ainda, arriscamos supor que a permanência desses japoneses em seu país seria condição para uma melhor sorte. Mas, a respeito dessas questões, muito tem sido publicado.
A figura ainda complementa o convite expresso no texto verbal ao sugerir, com a enxada na mão, qual seria a finalidade da partida rumo à América Latina – o trabalho no campo. Isso equivale a dizer que, com base no estereótipo do japonês campesino, o enunciador atualiza o mundo ético do qual faz parte o seu ethos e onde se movem os seus co-enunciadores. Desse modo, “a adesão do leitor se opera num escoramento recíproco entre a cena de enunciação e o conteúdo desenvolvido, conformes que são um ao outro” (MAINGUENEAU, 2005: p. 14).



Considerações finais
Com relação ao cartaz publicitário analisado neste trabalho, considerando-se os registros históricos que documentam o grande número de japoneses que saíram de seu país sob os cuidados de Companhias de Emigração, podemos afirmar que o ethos visado pelo enunciador coincidiu com o ethos produzido por seu co-enunciador.
Levamos em consideração também que o público tinha construída para si uma representação do ethos daquele enunciador que era anterior àquela enunciação. Essa representação prévia do ethos do enunciador caracterizava o seu ethos pré-discursivo, construído pelo público a partir dos comentários que circulavam no país acerca da próspera terra de além mar. O ethos estabelecido por aquela enunciação, então, vinha confirmar as representações feitas pelo público até ali, presentes e anteriores a ela.
A construção do ethos pelo destinatário deu-se, podemos afirmar, por meio de uma percepção complexa do conjunto do quadro da comunicação. Quadro esse que, constituído por material lingüístico e não-linguístico, tinha por objetivo convencer o público acerca dos benefícios oferecidos pela proposta por meio da mobilização da afetividade desse mesmo público (por meio do planejamento textual e todo o cenário construído pela figura apresentada).
Os efeitos multi-sensoriais mobilizados pela enunciação presente no cartaz sob análise foram, pois, causados por um ethos que, “por natureza, é um comportamento que, como tal, articula verbal e não-verbal” (MAINGUENEAU, 2005: p. 16) (grifo do autor).
O ethos concebido naquela enunciação, por privilegiar a dimensão visual (o personagem e o país de destino são apresentados em primeiro plano), adquire a concretude que a figura dá ao discurso. E, por meio do tom com que desdobra o seu convite, vemos o enunciador suscitar um “ethos coletivo” (que representa a importância que o povo japonês atribui à família e ao trabalho) para alcançar seu objetivo de promover a adesão desse público ao seu discurso. Vimos, assim, que a propaganda veiculada recorreu a um ethos notamente estereotípico do público a que se dirigia. Salientamos, aqui, que o público não era a nação japonesa como um todo, mas tão-somente a camada popular que vivenciava os problemas sociais da época – agricultores falidos e desempregados que estavam à margem do processo de modernização por que passava o país. 
Concluímos este trabalho afirmando que, por meio da análise das modulações enunciativas que projetam traços de caráter e corporalidade na enunciação, recuperados nos elementos composicionais do próprio texto publicitário em sua interação com os co-enunciadores, pudemos verificar que o ethos visado pela enunciação publicitária fez-se coincidir com o ethos construído pelos co-enunciadores em virtude da mobilização afetiva que a mesma provocou nestes últimos.




BIBLIOGRAFIA:
COELHO, Jaime; HIDA, Yoshifumi. Shogakukan: Dicionário universal japonês-português. 2. ed. Tōkyō: Shogakukan, 1998.

GRECO, Eliana Alves. O ethos e a identidade de Lula: a trajetória discursiva de um candidato à presidência da república. In: 1ª JORNADA INTERNACIONAL DE ESTUDOS DO DISCURSO – JIED. Maringá. 2008.

LIMA, Marley Francisca de. Por que estudar japonês: entre a motivação instrumental e o símbolo de etnicidade, 2009. 106 f. Monografia (Bacharelado em Letras e Linguística). Departamento de Letras e Lingüística, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2009.

MAINGUENEAU, Dominique. Análise de textos de comunicação. São Paulo: Cortez, 2001 apud GRECO, Eliana Alves. O ethos e a identidade de Lula: a trajetória discursiva de um candidato à presidência da república. In: 1ª JORNADA INTERNACIONAL DE ESTUDOS DO DISCURSO – JIED. Maringá. 2008.

MAINGUENEAU, Dominique. A propósito do ethos. In: MOTTA, Ana Raquel; SALGADO, Luciana (Orgs.). Ethos discursivo. Editora Contexto, 2005.

MENDONÇA, Leda Moreira Nunes; ROCHA, Cláudia Regina Ribeiro; GOMES, Suely Henrique de Aquino. Guia para apresentação de trabalhos acadêmicos na UFG. Goiânia: universidade Federal de Goiás, Pró-reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, 2005.

PERELMAN, C.; OLBRECHTS-TYTECA. Tratado de argumentação: a nova retórica. São Paulo: Martins Fontes, 1996 apud GRECO, Eliana Alves. O ethos e a identidade de Lula: a trajetória discursiva de um candidato à presidência da república. In: 1ª JORNADA INTERNACIONAL DE ESTUDOS DO DISCURSO – JIED. Maringá. 2008.

REZENDE, Tereza Hatue de. Ryu Mizuno: saga japonesa em terras brasileiras. Curitiba, PR: SEEC; Brasília: INL, 1991.

SANO, Rui Kban. Japoneses: sonhos e pesadelos. In: SANO, Rui Kban.  Trabalhadores – Pubicação mensal do Fundo de Assistência à Cultura, Prefeitura Municipal de Campinas, 1989.

STÖRIG, Hans Joachim. A aventura das línguas: uma história dos idiomas do mundo. 4. ed. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2003.

YAMASHIRO, José. Japão: passado e presente. 3. ed. São Paulo, 1997.



[1] A História da Imigração Japonesa Leis Rouanet e PAC-ICMS. Disponível em: http://www.mpfassessoria.com.br/nt_html/917.html. Acesso em: 23 de novembro de 2009.

[2] Uma das formas de utilização da escrita hiragana (formada por letras fonéticas que correspondem, basicamente, a uma sílaba), que aparece sobrescrita (chamada de furigana, nessa posição) na transcrição que fizemos do texto original. Aqui, o furigana tem a função de indicar o modo de leitura do kanji (ideograma) no qual está sobrescrito.
[3] Modo de leitura (do texto japonês) escrito em letras romanas.
[4] De acordo com o dicionário da Shogakukan (1998), essa palavra pode ter os seguintes significados: “Vá”; “Vamos”; “Eia!”; “Coragem!”. Considerando o texto sob análise, iremos atribuir à palavra  o sentido de encorajamento ao povo que deveria emigrar para o Brasil.
[5] Acreditamos que ikau tenha sido uma variação de ikō, termo utilizado atualmente, cujo significado é “vamos”.
[6] Em muitos casos, esses verbos japoneses (verbos de objetividade) correspondem aos verbos da língua portuguesa que necessitam de um objeto direto como complemento.
[7] A ordem frasal da língua japonesa se dá por SOV (Sujeito + Objeto + Verbo), diferentemente do que acontece com o português, com o inglês e com outras línguas (STÖRIG, 2003).
[8] Neste trabalho, considero a figura presente no cartaz como um texto que também é analisado aqui.
[9] O texto dos Quadros 4 e 5 está escrito em cor branca, no rodapé do cartaz.
[10] Texto escrito em cor vermelha, no canto inferior direito do cartaz.
[11] O homem da figura apresenta-se vestido de modo semelhante ao dos trabalhadores rurais japoneses, há alguns séculos: sem camisa (e portando um tecido enrolado ao corpo que apenas cobria as partes íntimas masculinas, como uma espécie de “sungão” – a parte baixa do tronco do homem não é mostrada no cartaz). É interessante dizer que os japoneses que imigravam para o Brasil preocupavam-se em vir trajados com roupas ocidentais.